Efeitos colaterais do uso no uso do PC
Tinha convicção. Não. Não seria mais uma obcecada pela máquina e seus feitos heróicos em uma saleta composta de quatro paredes nuas, uma escrivanhia, uma cadeira de rodinhas e um assento ao portador do outro lado da mesa. Já cansara de ouvir estórias bem sucedidas de final de expediente: “Vc viu meu Pc novo?” Nossa que insulto a gramática! Engoliram as palavras, corromperam a língua materna em troca de meia dúzia de modernidade. “Meu PC!” Jamais ousaria usar tais palavras.
Era feliz com suas fabulosas estorietas sobre aquele dia que... Ou sobre quando, quando... Não importa se não tinha estórias do final de expediente sobre aquele dia que o técnico de informática passou a tarde espalhando olhares esverdeados na redação, ou sobre quando o PC travou na hora H e ele teve que ir tomar um cafezinho na cozinha. Era simples, poderia substituir seus contos por aquele dia que o chefe tropeçou no balde e vassoura deixados por um minuto no corredor no corredor, enquanto limpava, disfarçadamente, o vidro da sala de redação que tinha o PC ligado que o tal técnico examinava. Afinal sabia que ninguém tropeçaria nela mesmo. E quando chegara atrasada cinco minutos por deixar os pensamentos presos no monitor LCD com tela plana de catorze polegadas da recepção. Pensou que se aquele PC travasse seriam horas de olhos azuis na recepção. Mal acreditava que tinha pensado PC.
O contato que tinha com ele era breve: um espanador bailarino ou uma flanela embriagada de desejos. Às vezes quando a vassoura, por atrevimento ou curiosidade, chegava mais perto e tocava alguns fios deitados no chão, o coração saltitava na boca, o rosto cobria de um torpor, as pernas bambeavam e só voltava a respiração quando ouvia as palavras mágicas: “Está tudo bem tia!? Se quiser posso sair para a senhora poder limpar a vontade”. Mas sempre dizia que estava bem, que poderia ficar, pois já estava acabando. Mesmo assim ficava horas mergulhadas em pensamento, viajava pela tela e sentia os dedos fazendo um clic- clic no mouse juntos com os olhos verdes. Tinha curiosidade, queria saber como funcionava tudo, mas ali apenas limpava e suas mãos não eram delicadas como as da redatora.
Todas as vezes que uma daquelas máquinas parava de funcionar chamavam o técnico. Olhos verdes, maleta prata, cabelos sem vento e muitas horas na frente da tela. Ficava sempre ao pé da porta pronta para trazer o café, alcançar a chave, pegar o Cd disso e daquilo (conhecia os Cds pelos desenhos), ele sempre contava com os seus préstimos. Todos corriam de um lado para o outro com papeis, telefones, anotações. Ignoravam o técnico, mas lembravam da máquina e sempre alguém perguntava: “E aí, já está pronto?” E ele respondia: “Só mais meia hora, to terminando de formatar. Dessa vez consegui recuperar todos os arquivos”. Um sorriso, um gole de café. Depois ia embora e o verde dos olhos dele continuava piscando no botão do computador.
Com o tempo foi perdendo o medo, podia tocá-los: Máquina e homem. Com o espanador dançava sem pó. Com a flanela exalava perfume. E a vassoura teimosa se enrolava nos fios. “Alguém chame o técnico, meu PC travou”. E dia após dia via ele entrando na redação. Maleta na mão, cabelo sem vento, sorriso no rosto, sinal verde (os olhos). Todos ocupados. Mensagens, telefones, anotações, cafés e sorrisos, muitos sorrisos. No final do expediente também tinha estórias para contar e falava com as paredes nuas: “Vou ter o meu próprio PC. É uma questão de tempo. Ele não trava na hora H. A conexão e banda larga, já comprovei outro dia ao tomar café na cozinha. Terei acesso ilimitado é só dar o enter.”
Um dia enquanto limpava a sala da redação o PC principal travou, disseram que era a memória que estava cheia. Ficaram apavorados tinham que terminar a edição para o dia seguinte, mas o PC não respondia a nenhum comando. Então chamaram o técnico de olhos verdes. Falaram que ele não poderia vir, estava de férias, lua de mel. “Lua de mel?!” Ouvira bem, mas não vira aliança em suas mãos. Foi um delete seguido de um insert cruel. A flanela caiu e o espanador voou. Ela avançou em direção ao PC. Os olhos dele piscavam em verde e vermelho. Tocou a máquina. Feriu a tela plana LCD, penetrou o disco rígido e devorou cada Mb da memória, engoliu a seco cada CD, triturou com as mandíbulas ao desenhos do teclado, digeriu o mouse e em instantes o PC foi sumariamente destruído. Mas ouviu o clic, seus olhos estavam vidrados e desta vez todos da redação olhavam-na. Como uma capela: “A faxineira”, seguido de um silencio ensurdecedor. Mal percebeu o barulho da flanela embriagada e do espanador bailarino tocando o chão. Dirigiu-se em direção ao PC principal da redação, plugou-o na tomada. Morte súbita do silencio. Mensagens, telefones, anotações, cafés e risos, muitos risos. Não voltaria mais a sala da redação. O PC ainda lhe distribuía olhares esverdeados, com sua enorme cara LCD catorze polegadas.
Desconectou-se da rede.
Estava sem endereço de web.
A noite quando deitou na sólida cama de solteiro do quarto de meio salário, sentiu bem: memória cheia. Fez um backup, tomou um anti-vírus, reclinou a cabeça no travesseiro e antes de iniciar a formatação ainda viu o teto refletir a tela LDC de muitas polegadas, as paredes se recobrirem de preto internalizadas de fios coloridos plugados consecutivamente, a porta revestida de metal tal qual a entrada USB. Seria um racker que invadira seu sistema? Ou alguém conseguira descobrir sua senha? “Deletaram os meus arquivos”. Iniciou a formatação. Mas ouviu bem quando chamaram o técnico vestido de branco com olhos esverdeados para consertar a máquina.
No dia seguinte o Classificados do jornal oferecia uma vaga de emprego para faxineira com segundo grau completo e curso de computação.
Gisláide Aparecida Ferreira de Sena.
Nenhum comentário:
Postar um comentário